Temos sido frequentemente abordados, directamente ou via mail, com a seguintes questões: " Quando estão disponíveis as primeira ninhadas?" ou "Como posso adquirir um Cão do Barrocal Algarvio?" Compreendemos as questões e agradecemos muito o interesse que os nossos amigos têm no nosso Cão e no trabalho que desenvolvemos; no entanto, não queimaremos etapas com o objectivo de acelerar o processo, É fundamental dar passos muito seguros! O poeta espanhol António machado escreveu "O caminho faz-se caminhando"; nós, Associação de Criadores do Cão do barrocal Algarvio, seguimos o rumo que previamente traçámos e que, acreditamos, nos levará ao reconhecimento do nosso Cão. Pontualmente, temos oferecido cães aos amigos. A estes - e aos cães - tentamos não lhes perder a pista. É importante que assim seja, sobretudo, para evitar os erros do passado que, lembre-se, quase levaram à extinção do Cão do barrocal Algarvio. Este trabalho de casa é fundamental, como será a investigação genética. Mais tarde falaremos!
A participação do Cão do Barrocal Algarvio na XIV Feira de Caça e Pesca e do Mundo Rural, organizada pela Federação de Caçadores do Algarve, foi um sucesso. Os 80 exemplares expostos na Feira foram objecto de curiosidade e atenção por parte dos muitos milhares de visitantes que passaram pelo certame. Notámos, com muito agrado, que algumas entidades começam a reconhecer o nosso esforço e dedicação à causa do Cão do Barrocal e que algumas ajudas (não falo em dinheiro) poderão chegar em breve. É evidente que não esquecemos o apoio que alguns amigos, já referenciados nestas paginas, nos têm dado.. A Associação de Criadores do Cão do Barrocal Algarvio, enquanto filiada da Federação de Caçadores do Algarve, fez-se representar no almoço anual com os clubes e associações, que ocorre sempre durante a Feira e que contou com a presença do Sr. Ministro da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas, Dr. Jaime Silva. Na ocasião, oferecemos ao Sr. Vitor Palmilha, Presidente da FCA e da CNCP, uma pintura do artista Roman Markov, um ucraniano residente no Algarve, representando o Cão do Barrocal Algarvio. A nossa participação na Feira, edição de 2009, terminou com a V Concurso do Cão do Barrocal Algarvio.
Juiz de Exposições de Cães de Parar e de Raças Portuguesas
Juiz de Provas de Caça de Cães de Parar
Juiz de Provas de S. Huberto para Caçador com Cão de Parar
dr.jrodrigues@netcabo.pt
O Dr. Jorge Rodrigues publicou um artigo na revista da XIV Feira de Caça e Pesca e do Mundo Rural (do Algarve) - edição de 2009 - que, com a sua permissão, passamos a transcrever (com as limitações que o formato do blogue impõe):
CÃO DO BARROCAL ALGARVIO
- Poderão a História e a Morfologia explicar a sua Origem? –
O agrupamento canino conhecido como Cão do Barrocal Algarvio é hoje uma realidade e mais uma vez a sua presença nos terrenos de caça ou nas Feiras e certames cinegéticos o atestam.
Mostras anuais na Feira de Caça e Pesca do Algarve, muito participadas no ultimo decénio, a par de um crescente interesse de caçadores e de cinófilos relançam a questão de saber se estamos perante uma variedade de uma raça já existente ou no limiar do que poderá vir a ser uma nova raça.
Que há representatividade, alguma homogeneidade de tipo, dedicados e apaixonados criadores é um facto, mas não chega.
Dois aspectos são relevantes – colocar a Ciência ao serviço dos interesses regionais e nacionais e fundamentar possíveis origens, fornecendo contributos para escrever a sua História, de modo a individualizar essa possível raça perante as congéneres.
No primeiro caso, um grupo de interessados fundou uma Associação de Criadores,defensora dos interesses e divulgadora do Cão do Barrocal. Aguarda-se e é desejável uma participação mais dinâmica por parte de quem no nosso país tem poderes na área da cinofilia e cinotecnia – falo dos Serviços do Ministério da Agricultura e do Clube Português de Canicultura. Ao longo dos últimos cinco ou seis anos tivémos a oportunidade de inventariar, identificar e registar em imagens, inúmeros exemplares presentes em mostras e concentrações na Feira Algarve. Também tem sido possível a colheita de sangue e de pêlo de muitos cães deste grupo, bem como de podengos, para avaliação de DNA e estudos científicos na área cinotécnica. Recentemente foi conhecido o interesse das Universidades do Algarve e dos Açores em fazer esses estudos, estando esse material “religiosamente” guardado, já que como se poderá perceber, o caminho está cheio de escolhos e de “velhos do Restelo” que tentarão por todos os meios impedir que algo de útil se faça, como é hábito neste País de mentes pequeninas…
Trago hoje o que poderá ser um pequeno contributo para o segundo item – a História do Cão do Barrocal. São hipóteses que lanço em discussão, mas que a ciência poderá provar sem grandes dificuldades, assim haja a visão que outros que nos antecederam tiveram em Sagres e que tanto falta aos contemporâneos…
Na edição 2008 da Feira Algarve, na qualidade de Presidente da Comissão Técnica do Clube Português de Canicultura (cargo de que saí no início de 2009) em companhia dos membros mais destacados da Associação de Criadores do Cão do Barrocal e do veterinário José Ribeiro, habitual companheiro nestas andanças de matilhas e de “barrocais”, tive finalmente a oportunidade de levar a ver esses cães dois experimentados Juízes Internacionais de Morfologia Canina, Rui Oliveira e Zeferino Silva. E curiosamente, mal observaram esses cães ambos exclamaram – oh pá, afinal isto são Salukis…
Ao que retorqui – quanto muito terão influência de Salukis, agora Salukis abastardados não são…
Confesso que ganhava alguma consistência o que me tinha parecido quando observei pela primeira vez alguns exemplares ditos mais representativos, vai para uma dúzia de anos…
Poderá a História explicar ??
Talvez possa. Vamos aos factos. A História das tribos Berberes que dominavam o Norte de África diz-nos que regiões como a Numídia e o Magrebe foram sucessivamente ocupadas por Cartagineses, Romanos, Vândalos (estes provenientes das Espanhas) e Bizantinos.
No século VII d.C. vagas sucessivas de árabes foram ocupando todo o Norte de África e quase toda a Península Ibérica (excepto as Astúrias). Esses conquistadores árabes expandiram por tão vasto território a religião islâmica e a língua árabe, dominando, ou mesmo afastando na maior parte dos casos para o deserto a sul, as tribos berberes. Embora alguma coexistência de berberes e árabes tenha persistido no Magrebe
Povos tradicionalmente pastores e caçadores, serviam-se de cães para a caça. E que cães tinham estes povos de que falamos?
Os berberes usavam o Sloughi, uma raça actualmente considerada marroquina, de pêlo curto, galgo para caçar lebres e pequenos mamíferos. Como os seus donos foram afastados para o deserto ou para as montanhas, apenas alguns se terão misturado com os árabes invasores pelo que esse galgo marroquino terá pouco interesse para a nossa história.
Os árabes, que dominaram uma vasta região compreendendo o Médio Oriente, todo o Norte de África (600-1918) e a Ibéria (711-1492) permaneceram oficialmente no Reino do Algarve (Al-gharb, o Ocidente) entre 711 e 1249. Mas obviamente que esses povos que em geral designamos de Mouros ficaram por cá, miscigenados com as populações da Reconquista (moçárabes). Para a religião islâmica professada por estes árabes invasores, os cães eram considerados impuros, mas havia uma excepção – o Saluki – considerado uma dádiva de Alá e que já era representado pelos Sumérios cerca de 7000 anos a.C. e considerado pelos egípcios o Nobre. O Saluki é um galgo ligeiro de pêlo curto, tem um crânio estreito e focinho pontiagudo, orelhas caídas abundantemente peludas, membros felpudos atrás e a garupa algo descaída com os ossos ilíacos salientes; a cauda é felpuda e enrola um pouco. Distribuía-se por um extenso território do Mar Cáspio ao Sara acompanhando os árabes dominadores e apresentava cor fulva e dourada nos desertos dourados, cores muito escuras nas lavas negras do deserto e cores amarelo muito claro nas areias do Norte de África.
Embora a História registe a chegada dos Salukis à Europa e aos EUA apenas no século XIX, através de ofertas de sheiks e famílias árabes dominantes a príncipes e classes abastadas europeias, é lícito pensar que se os árabes estiveram na Ibéria tantos anos, trouxeram de certeza os seus cães para os ajudar na caça como meio de sustento ou mesmo para actividade lúdica das classes dominantes. E tem lógica deduzir que foram ficando nos locais mais inacessíveis do nosso território, onde os “mouros” não convertidos se foram aguentando mais tempo, depois do século XIII. Essas populações conquistadas e seus cães permaneceram na capital – Silves – nas serras algarvias e no Barrocal, este último local de subsistência alimentar das populações algarvias.
Daí à “mistura” com os cães que por todo o resto do território eram usados e que eram comuns na caça ao coelho e ao javali é um pequeno passo. E de facto, embora tenhamos de ter a precaução de esperar pelos estudos genéticos que possam atestar esta ideia, podemos verificar que o Cão do Barrocal do Algarve junta em si, tanto em termos morfológicos como funcionais, características que são típicas de uma raça considerada autóctone portuguesa – o Podengo Português, também com origem nos povos árabes que o trouxeram – associadas a características bem vincadas no Saluki (e que não existem no Sloughi marroquino) as quais poderão ter persistido, em “pólos genéticos” no antiquíssimo Reino dos Algarves dado o isolamento do território.
Pode ser uma estória que vos conto…
Mas a História confere-lhe fundamento. Assim os Homens da Ciência queiram estudar este caso de possível persistência de genes árabes na Ibéria, que a ser verdade, pode reescrever completamente a História deste galgo do Médio Oriente.
Legenda para as fotos (4)
1. Cão do Barrocal Algarvio2.Árabe com Saluki3. Podengo Português4. O Saluki
A XIV Feira da Caça e Pesca e do Mundo Rural foi apresentada à Comunicação Social, Numa cerimónia que contou com a presença dos edis de Faro e Loulé, respectivamente, Drs José Apolinário e Seruca Emídio. Vitor Palmilha, Presidente da Federação de Caçadores do Algarve, disse que esta edição será a maior de sempre e que o Cão do Barrocal Algarvio vai ser um dos destaques da Feira.
Há quem diga que Portugal, nos últimos 10/15 anos, devido à (má) utilização dos subsídios europeus, tem vivido um estado artificial, não correspondente à nossa realidade, o que inevitavelmente nos trará reflexos negativos para o futuro.
Há, no entanto, quem, refutando essa posição negativista, afirme que, com a política de aplicação de subsídios, o nosso País deu um grande passo em frente, no sentido de se colocar no pelotão da frente da Europa e do mundo.
Quem tem razão? A nossa posição guardamo-la para outra ocasião! Recorrendo ao dito popular “ Ninguém dá nada a ninguém” sabemos que o dinheiro da Europa também é nosso, logo deve ser usado com algum cuidado.
Pese a boa ou má utilização que os fundos comunitários tiveram entre nós, instalou-se o preconceito de que qualquer actividade que inove, ou recrie, é uma descarada caça ao subsídio.
Esta introdução vem a propósito de questões que frequentemente são colocadas aos membros da Associação de Criadores do Cão do Barrocal Algarvio no sentido de saber quanto recebemos pela recuperação do nosso Cão. E a resposta é: nada. Pelo contrário, todo este processo nos tem levado muitos milhares de euros, em cuidados e alimentação e tudo o que envolve a criação de cães. E, como não comercializamos, nem um cêntimo entrou.
O que nos move, então? O amor a este cão de quem conhecemos as características e as muitas capacidades! E o desejo de que no futuro se constitua como mais uma raça portuguesa!
A propósito e com muita sinceridade, aguardamos uma palavra de incentivo das entidades oficiais nacionais e sobretudo das regionais. Infelizmente esse incentivo ainda não chegou. Afinal, estamos a recuperar parte do nosso património cultural! Nunca é tarde..
O cão do Barrocal Algarvio insere-se num contexto muito rico de tradições culturais e ele próprio é produto dessa ancestralidade. A propósito dessa especificidade cultural e linguística, foi publicado o livro Algarviadas, da autoria de António Vieira Nunes. É um livro que reúne, em prosa e em verso, termos algarvios que o autor pretende que não sejam esquecidos.
O autor nasceu em 16 de Novembro de 1937, é natural da freguesia do Algoz, onde fez a instrução primária. Na sede do concelho, Silves, Frequentou o Curso Industrial, na antiga Escola Industrial e Comercial. Exerceu durante muitos anos a actividade de serralheiro, fora da Região.
Recorrendo às novas tecnologias, escreveu as Algarviadas, de que a seguir transcrevemos algumas quadras:
. Dizer vai dar banho ò cão Éi uma frase bêim vulgar Como éi vulgar dizer atão Que tamêim éi popular
Onde o sol quente no verão Faz mudar a cor da pele Onde bortuêja éi comichão Onde um cão é um cadele
Javali éi pórco espinhe Outros chamam javarde Moço pequeno é mecinhe Uma chatice é um farde
A voz do burro éi zornar Tromba de porco éi focinhe Andar de gatas ingatinhar Porco pequeno bacorinhe
Um terreno plano é uma varja Uma encosta é uma chapada Há terrenos que nã dão marja Outros que nã prestam pra nada
Meter na água era pôr de môlho Tratar da terra era contivar Apanhar feno raspar restolho Passar por água enxógar